Tirar fruta do pé e o direito de brincar

Aqui já foi um não-lugar para mim, mesmo antes da primeira visita. Atualmente moro numa cidade com pouco mais de 15 mil habitantes, localizada em uma das maiores serras do Rio Grande do Norte com um espaço territorial predominante rural e um estilo de vida que pode causar sentimentos dúbios assim como foi para mim. Me refiro ao não-lugar porque esse território interiorano já me foi não pertencente, me sentia estrangeiro do meu bairro, dos meus iguais, dos meus sentimentos, as diversas violências me fizeram acreditar que o culpado era o território, o jeito, o povo! Hoje os mesmos motivos me fazem amar e se sentir acolhido. 

Em época que viajava pelo nosso Estado enquanto criança, quando a espontaneidade ainda não tinha me sido sequestrada, eu ficava imaginando a infinidade de aventuras que existiam nas imponentes serras que se via pela estrada, criava um novo mundo, uma nova fauna e flora, alguns aventureiros prontos para uma grande exploração, dentre esses resquícios de repertório cultural se fundia as histórias que meu pai contava sobre seus momentos de caça deixando um espaço fértil ao imaginário para se criar inúmeras histórias. Atualmente fazer trilhas entre as serras é a realização de um sonho impossível e hoje moro em um município serrano. 

É fácil cair em estereótipos ao rememorar e narrar vivências nordestinas, é bonito, saudoso, ávido contar sobre a infância no sítio, brincar com bichos de plástico e com os reais: vacas, galinhas, pássaros. Falar sobre o esperar os tempos de chuva, o cultivo, o lanche catando fruta do pé. Poderia falar só sobre isso, não seria mentira, nem toda a verdade. Além desses momentos esperados eu também tive momentos de me refugiar em livros, na internet, por vezes o sertão pode não ser tão acolhedor quanto as águas do açude. Sai da minha cidade, fui morar em outra microrregião e quanto mais me permitia conhecer novos territórios mais elaborava e transformava o sertão interior (mais especificamente o Seridó pois virei bairrista!!!) em um lar. Não é possível resumir esse lugar e talvez por isso tenho apagado e reescrito tanto esse texto.

Ainda assim, acho importante falar sobre uma cidade rural que fica pertinho da nuvem, que dispõe de hectares de agricultura familiar, que a bicicleta é um dos maiores meios de transporte, que tem um clima e um ritmo diferente. Minhas aventuras através de caminhadas e pedais me fizeram conhecer o sítio da mercearia  que compro, eu conheço a vaca que será meu alimento mais tarde, conheço a extensão territorial frutífera com leguminosas que irão me nutrir, me recordo de minha infância, minha mãe "tratando" as galinhas que virariam refeição mais tarde, assim como me recordo também dos desertos alimentares que vivenciei fruto da desigualdade social. Uma outra experiência que acho de importante evidenciar é a aproximação com o brincar, tenho o privilégio de vivenciar essa prática no meu dia-a-dia na educação infantil e sei o quão é uma atividade enriquecedora não apenas para as crianças.

Atualmente inauguraram um parque da criança, um ganho enorme para a cidade, um espaço que conta com uma quadra de futebol, uma de vôlei, um parquinho e um percurso para caminhada, a falta de espaços como este já tinha sido motivo de grandes preocupações, somado a alta exposição de telas, o brincar na rua tão prevalente em cidades interioranas vinha caindo no esquecimento, então a obra de um espaço como este foi uma grande conquista e prova dessa aprovação popular é a quantidade de pessoas que passaram a utiliza-la.  É imensurável a felicidade transmitida quando um adulto tirava suas amarras sociais e ia experimentar o balanço do parquinho, o brincar deveria ser um direito fundamental também para adultos. Mas também como nas brincadeiras, acontecem conflitos, o instrumento de balanço quebrou e diversos foram os posts em redes sociais culpabilizando os 'vândalos' que estavam brincando. Brincar é perigoso para a manutenção do status quo. Podia ser debatido a criação de um outros espaço com recursos para o brincar adulto, valorização do esporte, investir em instrumentos com mais resistência, refletir sobre a necessidade de lazer, mas as opiniões públicas versam sobre a proibição e ainda mais burocratização da vida. 

Hoje escrevo não só para uma elaboração da questão e por sensibilidade aos temas, escrevo porque transformo o território em um lar, não preciso mais fugir para as palavras de um outro universo, faço de minhas palavras também moradia. Um salve para Socorro Acioli que escreveu: 

"Estar vivo é ser palavra na boca de alguém. Não lembrar delas me condenou ao abismo, não saber os nomes das pessoas, do meu lugar, a narrativa da minha vida, tudo o que somos é história e história se conta com palavras. Por isso bastou um bilhete. Lembrei-me da missa: ‘Mas dizei uma palavra e serei salvo’. Fui salva por apenas duas, o nome da cidade de onde vim e o meu nome.” Socorro Acioli em oração para desaparecer.


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