O Lugar dos Mortos na Cidade dos Vivos

Os pássaros manifestavam o mais bonito instinto musical enquanto eu descia a rua, ainda cambaleando olhando o sol dar seus primeiros passos, a luz da lua e o uivar ao longe anunciava que a noite não acabara ainda, eram quatro horas e a cidade estava tão viva quanto um cemitério. Tudo me parecia cheirar a esperança. Um homem eviterno me cumprimentou com um sorriso, ele carregava uma carroça com todo o tesouro nacional enquanto era seguido por um cachorro e ambos cortavam a linha do real e imaginário, jamais conheceram a morte, retribui com o melhor sorriso que poderia dar.

Alguns passos mais tarde encontrei um casal que representava a tríade homem-boi-cruz da família sertaneja, ele dava passos largos enquanto sua mulher carregava um terço na mão, ela tinha mais força que ele. Caminhei devagar prestando atenção em cada detalhe, o homem parecia marchar à uma peregrinação, seus olhos cor de um cavalo quarto de milha e sua pele marcada denunciava que era tarde demais, já acontecera o sepultamento dos seus sonhos, mas sua mulher não, toda a sua fé em Deus era um disfarce na fé que mantinha em si, ela sempre está pronta para uma guerra. Eles me olharam estranho e apressaram os passos, meu cheiro denunciava o quão desgraçado meu fígado estava.

Olhando as últimas estrelas e ouvindo o latir dos cães eu decidia sobre qual destino seguir, eu acho que fiz o caminho errado em algum lugar, tudo soa tão familiar quanto desconhecido, como se eu lesse um livro antigo pela primeira vez. Roubo uma flor de um canteiro malcuidado, observo aquela estrutura e começo a despir cada pétala, bem me quer, mal me quer. Antes que acabe minha atenção volta ao cheiro do pão francês e a todas as criações dos seres humanos para tornar a terra um lugar melhor, tudo em vão. Todos esses instrumentos apenas escondem o medo e o amor e todo o produtivismo descompensado esconde a tristeza do fim do domingo.

Vozes e um choro baixo denuncia que Maria não consegue dormir, sua cabeça não para e sua carne está inquieta. São quatro e meia de um dia útil, olho ao lado da padaria, ela está em sua varanda pensando em todos os amores que negou e onde estaria se tivesse aceitado, ou se recusado mais uma vez, ela não me vê. Caminho mais uma quadra e minhas pernas me levam ao meu lar, o sol resplandece majestosamente, enquanto subo as escadas tímido como a lua. Todos parecem dormir, mas também permanecem em vigília, não existe confiança nem em si mesmo, como os pensamentos intrusivos. Ouço um estrondo, tão alto quanto o choro de um bebê que acaba de nascer, que medo eu teria de nascer novamente.

Tiro todas as camadas que me escondem, pelado começo a cantarolar uma canção de ninar chilena na qual nunca tinha ouvido antes, “Eu disse a meu pequeno/Silêncio filhinho/Trago-lhe do mar/Uma grande concha/Silêncio filhinha, silêncio filhinho/A Olívia cresce, forte como cresce tu” e me embalo enquanto rego e podo minha planta, que precisa de cuidado tanto quanto uma criança, tanto quanto eu. Penso ter escutado um uivar, mas o som vinha de minhas próprias entranhas, um pulsar interior, como a força de escrever, colocar para fora, vomito as palavras.

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